Falar do cinema realizado pelo português Manoel de Oliveira é admirar a simplicidade (que me remete a Yasujiro Ozu) e a elegância de um homem que continua filmando aos 102 anos! Incrível constatar em “Singularidades de uma Rapariga Loura” o mesmo humor ingênuo de seu início em “Aniki Bóbó”, ainda na década de 40.
A obra definitivamente é indicada para os que já apreciam o estilo do cineasta, pois possui um ritmo lento, mesmo tendo apenas uma hora (que parecem duas!). Aqueles que já sabem o que esperar se encantarão com pequenos momentos simbólicos na trama, como quando se é recitado um poema de Fernando Pessoa ou na bonita forma que o cineasta encontrou para homenagear o autor do conto: Eça de Queirós. Aliás, conto este reproduzido com fidelidade. Sem querer estragar a surpresa para os que não conhecem a história, basta dizer que Oliveira nos apresenta Francisco (vivido por Ricardo Trêpa), um contador que se apaixona perdidamente por uma bela jovem (Catarina Wallenstein) com a qual troca olhares todas as tardes pela janela.
O diretor acerta ao trazer atemporalidade à obra, com personagens de gestos e atitudes que se alternam entre antigas e modernas. A Lisboa apresentada é claramente nascida das lembranças da juventude do cineasta, assim como os chapéus que serviam de adorno a uma elegância esquecida (infelizmente) pelos homens de nosso tempo.
A realidade é que não são os filmes do diretor que são lentos, fomos nós que perdemos a paciência. Oliveira (assim como Ozu) cria obras para serem saboreadas com calma, onde os detalhes possuem razão de existir.
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